Autor: Heitor Baptista Pato
viernes, 16 de noviembre de 2007
Sección: Artículos generales
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O culto dos promontórios em Portugal

A divinização de montes e promontórios inicia-se em tempos pré-históricos, com o culto a ser successivamente reactualizado por romanos, cristãos e muçulmanos. Em Portugal, os cabos de S. Vicente/Sagres, do Espichel e da Roca foram sacralizados desde o Neolítico final.

A divinização dos montes inicia-se em tempos pré-históricos e está claramente registada na Península Ibérica: no noroeste peninsular são conhecidos os casos de teónimos nos maciços montanhosos do Larouco, situados na fronteira entre Portugal e a Galiza, com os ex-votos dedicados ao deus Larauco ou Larocuo em Vilar de Perdizes (Montalegre), no Curral das Vacas (Chaves) e Baltar (Ourense, Galiza); do Marão, com a ara de Guiães (Vila Real) dedicada ao deus Marandico; e da montanha leonesa de Teleno, com uma ara (San Martín de Viloria) e uma medalha de prata (Quintana del Marco) dedicadas ao deus Tileno. Mencionem-se ainda os diversos mons sacer, ou montes santos, localizados em território português, como as serras de Sintra e de Monsanto junto a Lisboa ou a localidade de Monsanto, na Beira, bem como o caso de Pitões das Júnias (Montalegre), talvez um local originalmente consagrado ao culto das deæ matres, depois convertidas em Iunones (5, p. 33-37). Especial destaque merecem os promontórios e cabos que dominam as terras baixas ou se apresentam orograficamente inexpugnáveis. Considerados lugares sagrados por inúmeros povos antigos, os promontórios constituem pontos altos de uma verdadeira geografia numinosa e locais de hierofanias. Misteriosos braços de montanhas que dividem "terras, mares e céu" - assim Plínio o Velho descreveu o Cabo da Roca na sua "História Natural" (Livro IV, 113) - topografias altaneiras onde o sol diariamente se apaga na vastidão oceânica, são loca sacra por excelência, témenos ou recintos sagrados, altares de pedra que escondem segredos insondáveis. Os promontórios não representam apenas um mero acidente geográfico; eles são, em simultâneo, um lugar de história e de religião - e, portanto, de tradição e de arte. O monte Carmelo constitui um bom exemplo, entre tantos outros que poderiam citar-se, de um local sucessivamente sacralizado por diversos povos. Situado no norte de Israel, a sua estranha configuração atraiu desde muito cedo a atenção dos navegadores: já em meados do segundo milénio antes de Cristo era mencionado como "promontório sagrado" numa lista de territórios conquistados pelo faraó Tutmósis III; os fenícios consideravam que o deus Baal aí se sentava no seu trono; e os judeus designaram-no por Rosh Kadesh, o "promontório sagrado" onde o profeta Elias convocou o povo de Israel e os profetas de Baal e da rainha Jezebel para demonstrar o poder de Deus. O filósofo sírio Jâmblico, no séc. IV a. C., considerou-o "a mais sagrada de todas as montanhas e de acesso proibido ao homem"; e, de facto, é o monte Carmelo venerado simultaneamente por judeus, cristãos, muçulmanos e bahá’is. O culto destes locais numinosos ter-se-á iniciado em longínquas épocas pré-históricas com a qualificação dos primeiros espaços sagrados ou a erecção dos primeiros santuários. No mundo ocidental, e com a romanização, assistir-se-á não raras vezes à assimilação ou identificação desses antigos cultos a divindades romanas, num processo de interpretatio que os gregos já haviam aplicado e que os cristãos irão prosseguir e ampliar, reocupando e reconvertendo os velhos santuários pagãos, ou adaptando antiquíssimos ritos, para os atribuir à nova fé. O cabo de S. Vicente/Sagres (Algarve) O cristianismo irá pois, muito frequentemente, (re)dedicar os cabos a cultos cristãos, reproduzindo assim a interpretatio de gregos e romanos. Exemplo paradigmático é o do cabo algarvio de São Vicente, o Hieron Akroterion dos gregos ou o Promunturium Sacrum de Plínio, que Estrabão julgava erradamente ser o ponto mais ocidental da Europa e do Mundo. No séc. IV d. C., ao descrever o território dos Cinetes, diz-nos Avieno: "Então, lá onde declina a luz sideral, emerge altaneiro o cabo Cinético [Cyneticum iugum], ponto extremo da rica Europa, e entra pelas águas salgadas do Oceano povoado de monstros"; e acrescenta, referindo-se ao cabo de Sagres, frequentemente confundido na antiguidade com o de São Vicente: "Segue-se um promontório, que assusta pelos seus rochedos, também ele consagrado a Saturno [Saturni promunturium]. Ferve o mar encrespado e o litoral rochoso prolonga-se extensamente" (2, p. 23). A presença de locais de culto mágico-religioso está registada no barlavento algarvio desde o Neolítico, provavelmente entre finais do VI milénio e inícios do V milénio a. C., com importantes núcleos de menires e de cromeleques de que se conhecem actualmente cerca de vinte jazidas arqueológicas e de que merece destaque o sítio da Caramujeira (Lagoa), onde se encontraram 25 pequenos menires, alguns deles claramente fálicos e decorados por bandas incisas, que talvez representem vulvas, enquanto outros apresentam vestígios de pintura vermelha. Também junto aos cabos de S. Vicente e de Sagres, em vários locais do concelho de Vila do Bispo, conhece-se uma das maiores concentrações de menires e recintos megalíticos da Europa: se a Carta Arqueológica do Concelho de Vila do Bispo, publicada em 1987 por Mário Varela Gomes e Carlos Tavares da Silva (6), enumerava 121 menires na região, já mais recentemente o investigador João Velhinho afirma ter cartografado 267 menires, considerando mesmo que o seu número terá sido antigamente muito superior (20). Fenícios e cartagineses terão aqui cultuado, em São Vicente/Sagres, as entidades Melcart-Héracles e Baal-Cronos-Saturno. O culto a Melcart em locais costeiros era frequente entre os fenícios. Todavia, Blázquez Martínez (10) considera que os cultos registados em S. Vicente e Sagres seriam muito anteriores às primeiras viagens fenícias pelo mar mediterrâneo, enquanto García Quintela (13) propõe a hipótese de eles se terem desenvolvido em contexto indoeuropeu, talvez céltico, e recusa mesmo que alguma vez tenham sido púnicos. Autores clássicos relatam-nos, desde o séc. IV a. C., cerimónias religiosas que envolviam libações e a proibição de se pernoitar no santuário, visto o local estar reservado aos deuses. Artemidoro, citado por Estrabão na sua "Geografia" (Livro III, Cap. I, 4-5), assevera que "não é permitido oferecer ali sacrifícios nem, à noite, sequer vistar o lugar, porque dizem as pessoas que os deuses o ocupam nessa altura"; por isso, os peregrinos que queriam venerá-lo "passam a noite numa povoação visinha e então vão aí durante o dia, levando água consigo, porque ali ela não existe"; e aí viu "pedras em vários lugares, agrupadas em número de três ou quatro, que de acordo com um costume local os visitantes fazem girar num sentido e, depois de oferecerem uma libação, movem outra vez". Saliente-se que Estrabão informa ter Artemidoro negado a existência no promontório de um templo ou altar dedicado a Hércules ou a qualquer outra divindade, e desmente a informação que nesse sentido dera Éforo. A crítica, porém, não é reconhecida pela investigação moderna: a informação de Éforo data do séc. IV a. C., enquanto Artemidoro visitou o local no séc. I a. C.; deste modo, o santuário mencionado pelo mais antigo dos dois autores poderia estar já destruído no tempo do segundo, ou não ter sido por ele reconhecido como santuário (no sentido de estrutura edificada, dado poder tratar-se apenas de um recinto sacralizado, ou témenos). Para alguns investigadores estas pedras seriam bétilos, pedras sagradas em que se supunha existir vida divina, cultuados pelos povos fenícios e pelos antigos judeus: "E Jacob levantou-se cedo de manhã e tomou a pedra de que se servira como almofada, e colocou-a como uma coluna, e sobre ela derramou óleos. E chamou àquele lugar Betel; o nome daquela cidade, porém, era antigamente Luz" (Génesis, 28, 18-19). Suponho, todavia, que se tratará de uma referência aos pequenos menires de forma ovóide, inseridos num horizonte temporal pré-fenício, que ainda hoje podem ser observados na área e que atrás mencionei. Esta antiquíssima tradição mágico-religiosa permanecia viva no local ainda nos finais do séc. XIX. Leite de Vasconcelos, que ali foi em 1894, diz que o povo chamava moledros ou meledros aos montículos formados por pequenas pedras, afirmando que "quando se leva do moledro uma pedra, e se deixa num sitio, ahi a pedra anoitece e não amanhece: i. é, vae-se de manhã ao sitio em que á noite se deixou a pedra, e esta já lá não está, e reapparece no moledro" (19, vol. II, p. 205). Se o extremo sudoeste de Portugal foi sacralizado por populações pré-históricas e púnicas, continuou igualmente a sê-lo por populações cristãs e islâmicas. Martirizado no início do séc. IV, São Vicente foi objecto de um culto que rapidamente se espalhou por toda a Península. Após as invasões islamitas e para fugir às perseguições de Abderramão I, no séc. VIII, os restos mortais do diácono, supliciado na cidade espanhola de Valencia no ano de 304 d. C. de acordo com as lendas hagiográficas, foram para ali trasladados pelos cristãos valencianos (diz-se que arrastados pelo mar e acompanhados por corvos...), transformando o cabo - agora conhecido por Tarf al-Gharb, ou cabo do Ocidente - em local de peregrinações tanto cristãs como muçulmanas, associadas à misteriosa Igreja do Corvo ou Kanisat al-Gurab mencionada pelos cronistas árabes. O templo, talvez de origem tardo-romana ou visigótica, localizava-se no Cerro dos Mouros, próximo do Monte dos Amantes em Currais da Granja (Granja, Vila do Bispo), onde há vestígios de cromeleques e de uma povoação romana e em cujas imediações o topónimo Mesa da Marinha preserva claramente a memória de um dolmen cristianizado. No séc. XII, o geógrafo al-Idrisi (7, p. 223) menciona, na zona poente do cabo, esta Igreja do Corvo como fazendo parte de um convento de monges moçárabes, com uma pequena mesquita onde os muçulmanos iam em peregrinação; o conjunto foi arrasado, ainda em meados do séc. XII, por almorávidas. Diz-se que os corvos permaneceram de vigia na sepultura até o corpo ter sido transferido para Lisboa, em 1173, por ordem do Rei D. Afonso Henriques. Todavia, o culto e as peregrinações mantiveram-se mesmo depois da trasladação das relíquias, já que D. Afonso III mandou ali estabelecer uma casa de romeiros em 1260; e, em 1316, D. Dinis mandaria edificar um novo convento, que manteve a designação de Convento do Corvo. O Cabo Espichel (Sesimbra) Do ponto de vista paleontológico, a zona da Arrábida revela-se extremamente rica e tem apresentado fósseis de invertebrados, como moluscos e equinodermes, e de vertebrados, como peixes e répteis, nomeadamente crocodilos, tartarugas e dinossáurios. É nos terrenos de transição do Jurássico Superior (há cerca de 145 milhões de anos) para o Cretácico Inferior (110-120 milhões de anos) que se encontram os registos icnofósseis de dinossáurios. Estas marcas foram impressas nas vasas moles de sedimentos que constituíam o fundo de uma zona de grandes pântanos lagunares, ou charcas salobras e pouco profundas; após o seu soterramento por sedimentos mais recentes, inicialmente em estratos horizontais, acabaram por litificar transformando-se em margas e calcários; posteriormente, a actividade tectónica fracturou estas camadas que se erguem hoje, quase a prumo e sobrepostas como folhas, até aos 135 metros de altura, testemunhando as violentas convulsões geológicas que brutalmente alteraram o local. Os estudos realizados no Jurássico Superior, na jazida da Pedra da Mua (praia dos Lagosteiros) permitiram detectar abundante microfauna, especialmente de Anchispirocyclina lusitanica, e várias camadas com abundantes pistas de dinossáurios, atribuídas por Miguel Telles Antunes (1) a um grande saurópode com envergadura superior a 15 metros (Neosauropus lagosteirensis), a um outro saurópode (Megalosauropus gomesi), a terópodes (talvez Megalosaurus Iguanodon) e a um pequeno bípede (semelhante ao Camptosaurus). As observações realizadas em 1992 e 1993 reconheceram pelo menos oito níveis de pistas. No nível 3 existem pelo menos 12 pegadas, 11 de saurópodes e uma aparentemente de um bípede tridáctilo, provavelmente um terópode. Noutros níveis notam-se pegadas de indivíduos mais pequenos (pegadas entre 38 e 46 cm) e de indivíduos maiores (pegadas entre 70 e 73 cm). As observações sugerem a presença de uma pequena manada de sete animais jovens, movendo-se em grupo numa mesma direcção, e de um outro grupo de três adultos deslocando-se num rumo ligeiramente diferente. Trata-se, assim, do "primeiro exemplo convincente de comportamento gregário nos saurópodes, reconhecido numa jazida icnológica europeia, bem como o melhor testemunho conhecido de tal comportamento entre saurópodes juvenis" (9, p. 27). Estes saurópodes "viajavam evidentemente em dois subgrupos constituídos por pequenos animais (…) e por animais maiores (…). Mas todos viajavam na direcção sudeste. Nenhum outro exemplo de pegadas de um grupo gregário de brontossáurios é actualmente conhecido em que os indivíduos apresentem marcas de pés tão pequenas" (p. 34). Num outro trilho da pequena calheta dos Lagosteiros, do Cretácico Inferior, situado na parte superior da arriba norte da baía - que foi inicialmente uma laguna abrigada por recifes coralíferos - observam-se pistas idênticas às anteriormente descritas, nomeadamente as pegadas de um ornitópode de grandes dimensões, de um terópode bípede com três dedos e o possível rasto de uma cauda. Nestas arribas do Cretácico, entre a praia dos Lagosteiros e a Boca do Chapim, foi ainda encontrado diverso material osteológico, como vértebras, costelas e dentes de dinossáurios carnívoros e herbívoros. É precisamente a primeira dessas pistas - a laje calcária da Pedra da Mua, com cerca de 40º de inclinação, situada no lado sul da praia dos Lagosteiros e quase na vertical sob a pequena Ermida da Memória onde Santa Maria do Cabo foi primitivamente cultuada - que viria a ser interpretada em tempos medievais como o rasto milagroso deixado por uma mula gigante que teria transportado a Virgem do mar até ao topo da arriba; e por isso ficou o local conhecido por Pedra de Mua, antiga forma de "mula", feminino de "mu" ou "macho", proveniente do latim "mulus, muli" (masculino) e "mula, mulæ" (feminino), dando assim origem à invocação medieval de Santa Maria da Pedra de Mua. Ali se erigiu um santuário de romaria popular, já documentado no séc. XIV e totalmente remodelado nos inícios do séc. XVIII. Mas a zona da Serra da Arrábida e do Cabo Espichel poderá ter sido, já desde a mais remota antiguidade, local de devoção mágica ou religiosa. De facto, é possível (embora não certo) supor que o Espichel, em tempos muitos anteriores ao cristianismo, fosse já um "local propiciatório de práticas cultuais, talvez suscitadas, desde tempos muito recuados, pelas pegadas de dinossáurios" (17, p. 118). Nas necrópoles-lapa do Fumo e do Bugio, grutas naturais situadas na zona, encontraram-se objectos em xisto, osso e calcário associados a práticas funerárarias, implicando talvez - mas não certamente - a existência de cultos a uma entidade superior. A antiquíssima povoação humana de toda a zona apresenta aliás níveis de ocupação pré-histórica em grutas que nalguns casos foram utilizadas até à Idade Média, como na lapa do Fumo, e noutros casos transformadas em locais de culto cristão com a erecção de uma capela, como na gruta-ermida da Lapa de Santa Margarida, junto ao Portinho da Arrábida, com ocupação desde o Paleolítico, ou em ermitério, como as lapas do Monte Alverne, com a imagem de Santa Maria Madalena, e a do Solitário, onde viveu um clérigo menor (3, p. 12). Na lapa do Bugio encontrou-se, para além de outro valioso material arqueológico, uma raríssima placa de xisto em que se observa o contorno de um ídolo de tipo característico da cultura dolménica portuguesa, dentro do qual se inscreve um segundo ídolo, feminino, apresentando a configuração característica da cultura de Almeria, assim comprovando o intercâmbio da zona da Arrábida com as distantes civilizações mediterrânicas (11). Especial destaque merece a lapa do Fumo, situada à altitude de 217 metros e com cerca de 70 metros de comprimento, onde se detectaram vários níveis de ocupação ao longo de cinco mil anos: tumulações, um machado de pedra polida e vasos cerâmicos decorados no nível Neolítico médio; tumulações e espólio idêntico ao da cultura megalítica do Alentejo, com placas de xisto, colares de contas e ídolos antropomórficos e zoomórficos, no Neolítico final (na "camada vermelha", assim chamada devido à adição ritual de ocre); tumulações no Calcolítico, com cerâmica campaniforme e uma placa de arqueiro; e diverso espólio cerâmico, muito raro entre nós, no nível da Idade do Bronze. A lapa continuou a ser ocupada na Idade do Ferro, na época romana e, mais tarde, por eremitas islâmicos originariamente provenientes do norte de África: ali foi encontrado um tesouro de 80 quirates de prata (moedas muçulmanas), de que se destacam uma dezena de moedas de Ibn Uazir, senhor de Beja, Évora e Silves, cunhadas nas oficinas desta última cidade no séc. XII (16, p. 200). Com os sucessivos processos de miscigenação cultural introduzidos pela romanização, pela cristianização e pela islamização, foi-se naturalmente verificando o aparecimento de novos cultos, que se sobrepuseram às anteriores religiões. De acordo com Pinho Leal (8, vol. III), que copia informações mais antigas, na zona da Arrábida terão assim existido templos dedicados a Apolo e a Neptuno: aquele no Monte Formosinho, "onde, segundo a tradição, existiu um templo de Apolo, do qual há ruinas", e este junto à fortaleza do Outão, em cujas escavações se achou "parte de uma estátua de mármore com versos em louvor de Neptuno e uma estátua de metal, do mesmo deus, entre as ruinas de um edifício que mostrava ser templo desta divindade, entre as quais haviam muitas arquitraves e pedaços de columas de mármore fino e inscrições latinas, nas quais se dava áquele sitio o nome de Promontório de Neptuno". Com o domínio islamita da Península assiste-se à implantação de ribatat, pequenos cenóbios-fortaleza ou conventos habitados por confrarias de homens santos guerreiros que buscavam a iluminação interior, destinados à oração, à defesa e à expansão militar do Islão (djihâd), normalmente associados a uma mesquita ou oratório e a um espaço de estudo religioso (madrassa), e sempre construídos em altos de montes ou arribas costeiras, dado o seu interesse estratégico: o próprio topónimo Arrábida, de "al-rabiTâ", significa "convento fortificado para guardar fronteira", isto é, um convento-fortaleza integrado numa vasta rede de edificações religiosas e castrenses em que homens santos, os sufis, se entregavam simultaneamente à prática da meditação ascética e à guerra, entendida como um modo de expandir a fé no verdadeiro Deus. Saliente-se que a raiz semítica r-b-t está na origem de vários vocábulos portugueses como "arrábida", "morábito", "almorávida", e também "rebate" ou "arrebatar", implicando sempre a ideia de vigilância, bem expressa nas torres das atalaias (do árabe at-talai'â). Estes locais atingiam por vezes dimensões expressivas, mas eram em muitos outros casos simples cenóbios ou eremitérios fortificados: nestas circunstâncias, são geralmente designados por "morábitos" (de murâbit, eremitão), pequenos edifícios de forma quase sempre cúbica com cobertura em meia-esfera, que reproduziam a forma do mais importante edifício religioso dos muçulmanos, a Ka’aba de Meca, no qual se venera uma pedra negra de forma cúbica (Ka’aba significa precisamente "cubo"). Em Portugal, estes edifícios são popularmente designados por "cubas" (do árabe qubba, "cúpula"), embora os respectivos significados não sejam exactamente sinónimos: os morábitos são locais onde vive um religioso, ou eremitérios, enquanto as cubas são túmulos em que se veneram homens santos (os marabu), onde se vai em peregrinação para os honrar e participar do seu poder (baraka). Bem perto do Espichel, a localidade da Azóia provém também ela de um étimo árabe, az-zawiya, que originalmente significa "canto de uma casa", mas também "promontório" ou "cabo", tendo possivelmente a actual aldeia nascido a partir de um núcleo habitacional estabelecido junto a esse túmulo muçulmano. Trata-se de locais isolados, propícios à meditação, e daí que o termo tenha passado a significar comunidades religiosas, ou confrarias, organizadas em função do túmulo de um homem santo e das suas relíquias, geralmente associadas a uma hospedaria para os indigentes e a uma escola para o ensino do Islão, aonde acorriam peregrinações. Em todo o Magrebe, o termo é sinónimo de ribat. A permanência do topónimo "azóia" nas proximidades do Cabo Espichel indica claramente a existência - naquele tempo, naquele local e naquela zona de influência - de um sítio sagrado, de um túmulo-santuário de santarrão, ou marabuto, venerado pelas populações muçulmanas. É, por isso, possível e legítimo supor-se já nessa época a organização de peregrinações religiosas à finisterra sagrada da Arrábida, de que as posteriores romarias a Santa Maria do Cabo/Santa Maria da Pedra de Mua viriam a ser, afinal, uma reactualização. Recorde-se que esta zona de forte implantação islamita, onde abundam os topónimos de origem arábica, era atravessada por uma via romana que, vinda de Mérida, terminava em Porto Brandão ou no Seixal, passando nas proximidades de Murfacém, com o seu conjunto de 30 cisternas árabes e um morábito cristianizado (18); daqui se atravessava o Tejo para Lisboa; e de Lisboa partiam inúmeras vias para norte, atravessando todo o arrabalde da cidade, também de forte implantação muçulmana. Por esses itinerários correriam talvez as peregrinações de então, ligando uma mesma unidade cultural separada pelas duas margens do Tejo, tanto mais quanto os esteiros, recortes, canais e braços de rio chegaram nessa época a penetrar profundamente na charneca interior da grande península entre Tejo e Sado e a ligar directamente os respectivos estuários. Por isso "Lisboa aparece (…), no século X, como o centro político, administrativo, económico e religioso de uma região que envolvia a Península de Setúbal com Almada, Palmela e Alcácer, parte dos campos da Balata, Sintra e outras vilas do actual distrito de Lisboa" (4, p. 79). O Cabo da Roca (Sintra) Também o cabo da Roca e a serra de Sintra - o "monte Tagro" de Varrão (na opinião, por exemplo, do humanista Damião de Góis; modernamente, o monte Tagro tem sido identificado com a serra de Monsanto, isto é, "Monte Santo", em Lisboa), onde as éguas concebiam do vento, o "mons Sacer" de Varrão e Columela, o "cabo Ofiussa" de Avieno (numa evidente alusão ao culto ctónico das serpentes), o "cabo Magnum, Ártrabo ou Olissiponense" de Plínio o Velho ou o "promontório da lua" de Ptolomeu - se encontram associados a antigos cultos pré-históricos, sucessivamente romanizados, cristianizados e islamizados, tanto mais que a zona constituia um obrigatório local de passagem para os povos que do Mediterrâneo iam a caminho do Norte, em busca das ilhas Cassitérides, ou que do Norte se dirigiam para as ricas zonas do centro-sul peninsular, a caminho do mar Mediterrâneo. Indício claro desses cultos astrais são as inúmeras lúnulas calcárias, ou placas em forma de crescente lunar, descobertas em jazidas arqueológicas da região e que expressivamente documentam o culto prestado à Lua. Permanentemente "mergulhada numa bruma que não se dissipa", como dizia no séc. X o geógrafo árabe Al-Bacr, a serrania deveria ter surgido aos povos antigos como um axis mundi simbólico. A serra de Sintra não tinha então o aspecto densamente arborizado que hoje apresenta, graças à vasta campanha de florestação empreendida no séc. XIX pelo Rei D. Fernando II e às sucessivas reflorestações ocorridas no séc. XX; e a própria rudeza escalvada das serranias deveria ter contribuido para a sua sacralização. Ainda nos finais do séc. XVIII, o visitante inglês James Murphy descrevia assim o aspecto da serra: "Para onde quer que viremos os olhos, a mente impressiona-se com as terríveis obras da Natureza: de um lado está o oceano distante, cuja superfície se mistura com o céu azul; lá em baixo, o vale profundo assemelha-se a uma caverna magestosa; o aspecto despedaçado dos penhascos nos declives da serra, como se estivessem rasgados aos pedaços e emergindo de todos os lados do solo, ameaçam ao menor toque ruir e destruir a vila" (12, p. 24). Junto ao Cabo, a capela medieval de São Saturnino - fundada no séc. XII por um dos companheiros e alferes-mor do Rei D. Afonso Henriques, D. Pêro Pais - situada a escassos metros da ermida do séc. XVI de Nossa Senhora da Peninha, constitui a cristianização de um antigo culto a Saturno, certamente similar ao que se registava mais a sul, no Promontório Sacro. Já no término de Colares, no Alto da Vigia, junto à ribeira do mesmo nome, na foz do rio de Maçãs, existira outrora um grande santuário dedicado ao Sol e à Lua, datável dos sécs. II-III d. C. e de que no séc. XVI apenas se viam esparsas ruínas. Na época, o recinto circular do santuário (talvez um templo, talvez um simples témenos) erguia-se sobre uma elevação rochosa que avançava pelo mar, até aos 40 metros de altitude; ao assinalar, de modo simultaneamente real e simbólico, o extremo ocidental da Romanidade, constituia-se como um verdadeiro finis terræ. Conhecido desde 1505 através de descoberta, por Valentim Fernandes ou Valentim de Morávia, de três aras consagradas a "Soli et Lunæ, Soli Æterno Lunæ e Soli Æterno", o humanista André de Resende estudou-o na sua célebre obra "De Antiquitatibus Lusitaniæ," publicada em 1593: "Junto ao sopé da serra, mesmo no cimo do promontório, que é cortado abruptamente sobre o oceano, existiu outrora um templo consagrado ao Sol e à Lua, do qual agora apenas existem ruínas nas areias do litoral e cipos, alguns com inscrições reveladoras da antiga superstição" (14, p. 98). Já o humanista Francisco de Holanda desenhara anteriormente o santuário de forma imaginativa, com um total de dezasseis aras; incluiu o desenho na obra "Da Fabrica que Faleçe ha Çidade de Lysboa", em 1571, e descreveu o santuário como "um círculo ao redor cheio de cipos memórias dos Imperadores de Roma". O arqueólogo Cardim Ribeiro sublinha: "Estamos claramente perante uma intencional forma de sincretismo entre um culto de cariz astral e o culto imperial, operada num santuário carregado de simbolismos pela sua singular localização geográfica e, porventura, também herdeiro de remotas tradições reli-giosas regionais, quer ligadas ao ciclo solar, quer à ancestral deusa lunar e salutífera que, de noite, vaguearia pelas penedias e pelos densos bosques do monte Sagrado, da Serra da Lua" (15, p. 236).

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